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Canetas emagrecedoras intensificam "economia moral da magreza"

Professora da USP analisa como medicamentos injetáveis fomentam padrões estéticos perigosos e a medicalização do corpo saudável, afetando a saúde mental e a luta feminina.

03/05/2026 às 14:49
Por: Redação

A crescente popularidade dos medicamentos subcutâneos voltados para o tratamento da obesidade, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado um intenso debate. Embora apresentem resultados significativos e recebam o aval de diversas associações médicas, esses fármacos são frequentemente utilizados sem supervisão profissional ou por indivíduos que não se enquadram no quadro de obesidade.

 

Para Fernanda Scagluiza, professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a atração por essas canetas reside no que ela denomina de "economia moral da magreza". A especialista foi uma das entrevistadas no programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, no episódio intitulado O boom das canetas emagrecedoras, exibido na última segunda-feira, dia 27.

 

A "Economia Moral da Magreza" e seus Impactos Sociais

 

Questionada sobre o conceito de economia moral da magreza e sua relação com a violência contra pessoas gordas, Fernanda Scagluiza explicou que ela se refere à atribuição de significados distintos a diferentes tipos de corpos. Um corpo magro ou atlético, por exemplo, é percebido como um símbolo de virtude, fruto de esforço e controle pessoal.

 

Enquanto que, socialmente, um corpo gordo é visto como o de alguém preguiçoso, relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos, como falta de competência, falta de higiene, que não têm nada a ver com a realidade das pessoas.


 

A professora utiliza uma analogia com "fichas" para ilustrar como as pessoas gordas são desfavorecidas no convívio social. Indivíduos com corpos magros ou sarados possuem mais "fichas", usufruindo de privilégios em esferas como trabalho, educação e relacionamentos amorosos. Em contrapartida, pessoas gordas enfrentam a perda de direitos e opressão, evidenciando que o privilégio de um lado implica na privação do outro.

 

Evolução e Propósito dos Padrões Estéticos

 

Sobre a origem desses padrões, Scagluiza observou que eles são antigos e variáveis conforme o período histórico. Contudo, o aspecto mais crucial, em sua visão, é que a existência de um padrão sempre restringe a diversidade. A imposição de um ideal de magreza extrema, "saudável" ou de um corpo hipermusculoso inevitavelmente exclui grande parte da população, cujo objetivo é justamente alimentar uma indústria que oferece soluções para alcançar tais ideais.

 

A pergunta "podemos dizer que, hoje, nunca se é magro o suficiente?" foi respondida afirmativamente pela professora, que parafraseia com a afirmação de que "toda gordura será castigada". Ela ressaltou que pessoas com maior peso corporal são as mais afetadas por um sistema de violência estrutural conhecido como gordofobia. Este sistema atua para marginalizar, humilhar, oprimir e privar essas pessoas de dignidade.

 

Esse sistema vai fazer de tudo para que essa pessoa fique de fora da sociedade, para que se enraize dentro dela a humilhação, a opressão e a falta de dignidade.


 

Mesmo quem não é gordo, segundo a especialista, sofre com a pressão estética pela magreza, que pode variar em intensidade dependendo do local, gênero e classe social. Mulheres são geralmente mais impactadas, embora a pesquisa ainda não diferencie suficientemente entre mulheres cisgênero, transgênero e travestis. Atualmente, qualquer pequena quantidade de gordura é vista como um problema a ser resolvido, muitas vezes por meio de soluções farmacológicas.

 

O Retrocesso da Positividade Corporal

 

Indagada se o movimento de positividade corporal, que começou a ganhar força a partir dos anos 2010 e promovia a diversidade, estaria sendo revertido com a ascensão das canetas emagrecedoras, Scagluiza concordou. Ela, porém, ponderou sobre a ingenuidade de pensar que se estava em um "paraíso" antes. Os avanços na moda, por exemplo, foram conquistados a contragosto, com a concessão de espaços limitados a mulheres com corpos ligeiramente maiores, mas ainda dentro de um padrão de "ampulheta", sem dobras na barriga.

 

A professora expressou a impressão de que a indústria está "muito feliz" em se desfazer dessas concessões e retornar ao padrão de magreza extrema. Ela citou uma reportagem recente que indicava que modelos de passarela, já consideradas "tamanho zero", precisam ter suas roupas ajustadas porque até mesmo essas vestimentas estão largas. Esse cenário é considerado altamente perigoso, especialmente para crianças e adolescentes, que são mais suscetíveis a influências externas.

 

Impacto nas Conquistas Femininas e a Medicalização do Corpo

 

A febre das canetas emagrecedoras, na visão de Fernanda Scagluiza, afeta diretamente as conquistas das mulheres. Ela descreveu o período atual como "temeroso" para as mulheres, mesmo para aquelas em posições privilegiadas. Mencionou a alta taxa de feminicídio no Brasil, a constante pressão do machismo e do cis-hétero patriarcado, e o avanço de movimentos conservadores como o redpill e o tradwife (esposas tradicionais).

 

Nesse contexto, a preocupação feminina com o tamanho da barriga e o caimento das roupas serve como um "sedativo político", desviando o foco da luta por direitos e para combater esses movimentos retrógrados e violentos. A busca incessante pela magreza extrema, impulsionada pelas canetas, é, portanto, conveniente para essa agenda conservadora.

 

Scagluiza também abordou a medicalização do corpo saudável por padrões estéticos, definindo-a como a transformação de um aspecto social em uma questão médica. A alimentação, que é um fenômeno sociocultural desde sempre, tem sido reduzida a uma mera ingestão de nutrientes, como quando as pessoas falam em "comer proteína" em vez de alimentos que a contêm. Com as canetas emagrecedoras, essa medicalização se intensifica.

 

Em um estudo que a gente está submetendo para uma revista, a gente encontrou o seguinte: as mulheres que já tinham usado as canetas, elas usavam o termo "vacina contra fome".


 

A caneta, nesse cenário, torna a fome algo opcional, uma condição que, historicamente, faz parte do processo evolutivo humano. Comportamentos observados incluem a restrição alimentar extrema, como o foco exclusivo em bater metas de proteína, água e fibra para garantir o funcionamento intestinal, e o uso de efeitos colaterais como náuseas e vômitos para justificar a não ingestão de alimentos. Ela citou uma frase marcante: "Foi esse o jeito que eu achei de fechar a boca num nível radical para conseguir emagrecer".

 

A especialista alertou para os riscos desses comportamentos à saúde individual e à vida em sociedade, questionando o destino dos rituais e do aspecto simbólico da alimentação. Reforçou que a alimentação saudável é um direito humano fundamental, essencial para o pensamento, a vitalidade corporal e a proteção contra diversas doenças, e que muitos desses aspectos podem ser perdidos nesse processo de medicalização e busca por padrões estéticos irrealistas.

 

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