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Crise no BRB afeta confiança, amplia pressão sobre funcionários e gera debate sobre futuro do banco

Operação Compliance Zero abala clima interno, provoca tensão entre servidores e acelera cobranças por solução institucional

16/04/2026 às 20:09
Por: Redação

A revelação de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, trazida à tona pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal em novembro de 2025, abalou a confiança – considerado o maior patrimônio do BRB – e provocou impactos que seguem presentes no cotidiano dos quase cinco mil funcionários da instituição.

 

Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e servidor efetivo do BRB desde 2008, afirmou que tanto a sociedade quanto os trabalhadores arcam com as consequências de uma decisão política de resgate do Master. Segundo ele, o ambiente de trabalho tornou-se significativamente mais tenso, especialmente para os funcionários que participaram das negociações com o grupo do banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso desde o início de março, e que passaram a prestar esclarecimentos a policiais federais e auditores.

 

De acordo com Oliveira, analistas com acesso a discussões internas sobre as operações com o Master têm sido os mais procurados para prestar informações. A negociação que resultou na compra de bilhões de reais em créditos do Master culminou na intenção do BRB de adquirir 58% do capital do Banco Master por dois bilhões de reais, operação que foi rejeitada pelo Banco Central dois meses antes da liquidação extrajudicial do Master e da deflagração da Operação Compliance Zero.

 

O sindicalista relatou que a crise institucional instalada desde a criação do banco, em 1964, nunca foi tão intensa. Após o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (PHC), por decisão judicial motivada por suspeitas de irregularidades e fraudes financeiras, clientes passaram a procurar as agências em busca de informações sobre a saúde financeira da instituição e sobre riscos para seus investimentos. São os próprios funcionários que, diante do aumento da procura, buscam transmitir confiança e convencer os clientes a manter suas aplicações no banco.

 

Oliveira destacou que, além da falta de respostas para todas as perguntas, os trabalhadores vivem clima de apreensão devido às incertezas quanto ao futuro profissional e institucional do BRB.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

O sentimento entre os servidores do BRB alterna entre forte indignação e apatia. Conforme Oliveira, já haviam sido identificados, internamente, indícios de irregularidade nas operações com o Master antes mesmo das investigações se tornarem públicas. Ainda em novembro de 2024, o sindicato denunciou a primeira compra e venda de carteiras de crédito do Master ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, considerando a operação prejudicial ao BRB.

 

Reflexos da crise para aposentados e mercado

 

A instabilidade também afeta aproximadamente três mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da solidez financeira do banco. A Previdência BRB informou que detém patrimônio superior a quatro bilhões, trezentos e noventa milhões de reais, segregado dos recursos das empresas patrocinadoras e instituidoras, incluindo as do conglomerado BRB, e que a gestão dos recursos é autônoma e independente.

 

O BRB, com mais de 60 anos de história, destaca possuir mais de oitenta bilhões de reais em ativos de mais de dez milhões de clientes, o que, segundo a instituição, permite absorver eventuais prejuízos por meio de aportes de curto prazo. Entretanto, Oliveira alerta que a incerteza e a demora para apresentar uma solução podem afetar mais o mercado que o próprio prejuízo, colocando em risco o patrimônio do banco.

 

A agência de classificação Moody’s rebaixou a nota do BRB em razão da ausência de informações detalhadas sobre o impacto real da aquisição de ativos do Master e da falta de um plano de recuperação. O relatório da Moody’s aponta a necessidade de uma injeção relevante de capital, sob risco de o banco ter dificuldades para honrar compromissos, além de mencionar que a falta de clareza contribuiu para o rebaixamento.

 

O BRB tem optado por se manifestar por meio de comunicados oficiais, evitando posicionamentos públicos de dirigentes e funcionários. Em sua comunicação digital, o banco lançou ações para reafirmar sua estabilidade e pleno funcionamento.

 

O presidente Nelson de Souza, que assumiu o comando do banco após o afastamento de PHC, não compareceu à audiência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, alegando que precisa aguardar a conclusão das auditorias e a aprovação do balanço contábil de 2025 pelos acionistas antes de se manifestar. A ausência gerou descontentamento entre os deputados distritais, que formalizaram a convocação obrigatória do executivo para prestar esclarecimentos em data a ser definida.

 

“O não comparecimento, especialmente diante da gravidade dos fatos, não é apenas um desrespeito a esta comissão. É, sobretudo, um desrespeito com o cidadão do DF, que tem o direito de saber o que está acontecendo com o BRB”, declarou o presidente da CCJ, Thiago Manzoni. O deputado distrital Fábio Felix acrescentou: “Queremos saber qual é a real situação do BRB. É isso que as pessoas estão perguntando nas ruas”.


 

Para Oliveira, a repercussão negativa do caso na imprensa reforça o discurso favorável à privatização do BRB, o que poderia levar à venda de ativos do banco a grandes instituições financeiras, possivelmente por valores inferiores ao de mercado. Ele ressaltou que o grande volume de reportagens publicadas diariamente alimenta essa narrativa, alertando para o risco de privatização e transferência, sem custos, de contas de governos e empresas controladas pelo banco para instituições privadas.

 

Impacto nos projetos e expansão

 

A crise obrigou o BRB a interromper projetos estratégicos de expansão para outros estados, frustrando funcionários que aguardavam transferência e cerca de 400 aprovados no concurso de 2022, cuja convocação ficou suspensa enquanto a situação não é resolvida. A expansão fora uma das marcas da gestão de PHC, com abertura de agências em capitais como João Pessoa e em estados como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de correspondentes bancários em diversas localidades. O banco também investiu em marketing, com patrocínio de eventos esportivos e a parceria com o Flamengo, resultando no banco digital Nação BRB Fla, que conta com quase quatro milhões de clientes. Contudo, a expansão já havia perdido ritmo antes mesmo do anúncio público da intenção de comprar o Master. Com a operação policial, os planos foram suspensos por tempo indeterminado.

 

Na última segunda-feira, a governadora Celina Leão, que substituiu Ibaneis Rocha após sua saída para disputa eleitoral, informou que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outros estados. Segundo ela, a decisão final cabe à diretoria da instituição, mas, independentemente do resultado, o banco retomará seu perfil regional, priorizando o atendimento das demandas de crédito do Distrito Federal.

 

A governadora já havia garantido que o BRB possui plenas condições para cumprir os compromissos firmados com o Banco Central e que uma solução para a crise será apresentada e implementada em até 30 dias. O prazo, contudo, foi criticado por Oliveira, que considera imprescindível a capitalização do banco e alerta para o agravamento das dificuldades caso não haja aporte financeiro e solução eficaz de imediato. Ele defende que o Governo do Distrito Federal deve fornecer os meios para resgatar a credibilidade do BRB, mantendo o controle distrital da instituição, responsável por fomentar a economia local e executar políticas públicas, como os cartões Gás, Creche e Material Escolar e o sistema BRB Mobilidade do transporte público local.

 

Preocupação com transparência e confiança

 

O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, apontou que a falta de divulgação do balanço de 2025 e de documentos contábeis agravou a crise de confiança no BRB e resultou em multas superiores a cinquenta mil reais por dia, impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários. Para ele, a transparência é fundamental no setor bancário e a ausência de informações gera insegurança entre correntistas e investidores, podendo afetar todo o sistema financeiro.

 

Bergo acredita que o Banco Central e a CVM deveriam adotar medidas mais rigorosas, criticando o atraso na apresentação do balanço anual e na realização de assembleias para análise das contas e eleição dos novos conselheiros, marcada para o próximo dia 30.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou o economista.


 

Caminhos possíveis para o BRB

 

O professor César Bergo elencou quatro alternativas para enfrentar a crise do BRB. Segundo ele, a principal medida seria uma nova injeção de capital pelos sócios, especialmente pelo Governo do Distrito Federal, promovendo a capitalização do banco. Outra opção seria a captação de empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outros bancos, o que traria recursos, mas a custos elevados. Também existe a possibilidade de intervenção do governo federal, com federalização e absorção do BRB por um banco público federal, como já ocorreu com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008. Por fim, há a alternativa da privatização.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.


 

O BRB foi procurado para comentar a situação, mas não respondeu até a publicação desta matéria, tampouco houve retorno da defesa do ex-presidente Paulo Henrique Costa. Em nota, a governadora Celina Leão declarou que a prisão preventiva do ex-presidente está sob análise do Poder Judiciário, que todas as providências cabíveis foram tomadas e que há plena colaboração do governo com as autoridades competentes.

 

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