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Cinema latino-americano mantém vivo debate sobre democracia

Obras indicadas ao Prêmio Platino reforçam a discussão sobre legados autoritários e a busca por direitos sociais, segundo especialistas.

03/05/2026 às 14:48
Por: Redação

A produção cinematográfica na América Latina continua a ser um palco essencial para a reflexão acerca da democracia, da memória política e das consequências do autoritarismo. A presença constante desses assuntos nas telas é um espelho das atuais tensões que caracterizam a região, conforme apontam especialistas em regimes ditatoriais e em cinema, em entrevistas concedidas à Agência Brasil.

 

Este cenário é evidenciado pela participação de ao menos três obras que abordam diretamente a discussão sobre regimes autoritários e a democracia na disputa pelo Prêmio Platino, a mais destacada honraria do cinema ibero-americano. Os nomes dos vencedores serão revelados no dia 9 de maio, em uma cerimônia que ocorrerá no México.

 

Entre as produções que competem e trazem à tona a temática da democracia e dos regimes autoritários estão dois longas-metragens brasileiros e um documentário paraguaio. Do Brasil, destacam-se O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça, que concorre na categoria de melhor filme do ano, e o documentário Apocalipse nos Trópicos, dirigido por Petra Costa. Somando-se a eles, o documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira, foca na memória da ditadura militar em seu país.

 

Filmes exploram passado e presente político

 

Cada uma das obras indicadas ao Prêmio Platino oferece uma perspectiva única sobre as questões políticas da região. O Agente Secreto investiga o apoio do setor empresarial aos regimes autoritários, a perseguição política e o esforço para apagar a memória da ditadura no Brasil. Já o documentário de Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, explora a influência crescente das religiões evangélicas nos rumos da política nacional. Por sua vez, Sob as bandeiras, o Sol resgata imagens raras para reconstruir a narrativa da ditadura paraguaia.

 

O professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Paulo Renato da Silva, ressaltou que as populações dos países latino-americanos enfrentam carências significativas em direitos básicos, como saúde, alimentação e moradia. Essas privações, segundo ele, geram insatisfações sociais profundas.

 

Silva enfatizou que a capacidade de atender a essas demandas está intrinsecamente ligada à democracia, e não a modelos autoritários de governo. Ele explicou que regimes autoritários tendem a privilegiar grupos políticos e econômicos específicos, ao mesmo tempo em que reprimem a liberdade de expressão e outras formas de manifestação de oposição.

 

É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las.

Paulo Renato da Silva é reconhecido como um dos principais pesquisadores da ditadura no Paraguai, período em que o regime autoritário recebeu apoio do Brasil por meio de articulações como a Operação Condor, detalhe que é abordado no documentário paraguaio.

 

Fragilidade democrática como tema persistente

 

A professora de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marina Tedesco, que se dedica ao estudo da cinematografia latino-americana, acrescenta que a vulnerabilidade das democracias na América Latina representa uma “pauta não resolvida”.

 

Ela observou que, ainda hoje, líderes políticos e figuras importantes na região manifestam apoio a regimes militares ou minimizam a gravidade de suas ações, tanto em relação às violações de direitos humanos quanto aos casos de corrupção. Como exemplo, Tedesco mencionou a reverência feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao presidente Alfredo Stroessner, retratado no filme de Juanjo Pereira. Stroessner liderou um regime corrupto e brutal no Paraguai, responsável pela prisão e tortura de mais de 20 mil pessoas.

 

Segundo a professora Tedesco, o cinema sempre teve a democracia como um tema central, abordado inicialmente de forma clandestina e, posteriormente, no exílio, por indivíduos perseguidos politicamente.

 

Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados.

Vale lembrar que, no ano de 2025, o filme Ainda Estou Aqui, que narra a ditadura brasileira sob a ótica da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o grande vencedor do Prêmio Platino.

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