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Estudo identifica aumento expressivo de Síndrome de Guillain-Barré após dengue

Pesquisa mostra que risco de Guillain-Barré é até 30 vezes maior nas duas semanas após infecção por dengue; especialistas recomendam vigilância.

17/04/2026 às 01:14
Por: Redação

Pessoas infectadas pelo vírus da dengue apresentam risco 17 vezes superior ao habitual de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas subsequentes ao diagnóstico. Quando considerada apenas a quinzena inicial após o surgimento dos sintomas da dengue, essa probabilidade é 30 vezes maior em relação à média.

 

Esses resultados foram obtidos por meio de pesquisa realizada por especialistas da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, com divulgação efetuada na revista científica New England of Medicine.

 

De acordo com a análise dos pesquisadores, considerando números absolutos, a cada grupo de 1 milhão de casos de dengue, cerca de 36 indivíduos podem ser acometidos por SGB. Embora esse valor seja considerado pequeno, os autores do levantamento classificam o dado como relevante diante da frequência de epidemias registradas no território brasileiro.

 

A SGB constitui uma condição neurológica rara, porém potencialmente de elevada gravidade.

 

O levantamento destaca que a dengue, entre todas as doenças transmitidas por mosquitos, foi a que mais rapidamente se espalhou pelo planeta. Em 2024, foram contabilizados 14 milhões de casos ao redor do mundo.

 

No âmbito da pesquisa, foram consultadas três grandes bases do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internações hospitalares, notificações de casos de dengue e dados oficiais de óbitos.

 

Na avaliação dos registros, mais de 5 mil hospitalizações por SGB foram contabilizadas entre 2023 e 2024. Em 89 dessas internações, a hospitalização ocorreu logo após o paciente manifestar sintomas relacionados à dengue.

 

Os autores do estudo ressaltam que é imprescindível que a Síndrome de Guillain-Barré seja incorporada aos protocolos de vigilância como complicação passível de ocorrer após quadros de dengue.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Conforme apontado pela Fiocruz, os dados obtidos colaboram para que médicos, enfermeiros e neurologistas estejam atentos à possibilidade de SGB em pessoas que tenham apresentado quadro de dengue nas seis semanas anteriores e manifestem sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento.

 

Para os responsáveis pelo levantamento, o reconhecimento precoce da doença é crucial. O tratamento, que pode incluir o uso de imunoglobulina ou plasmaférese, apresenta maior eficácia quando iniciado rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Segundo a Fiocruz, não existe terapia antiviral específica para a dengue no momento. O tratamento disponível baseia-se na hidratação e em suporte clínico. Diante desse cenário, os pesquisadores enfatizam que a prevenção, com destaque para o controle do mosquito Aedes aegypti e a imunização, é a medida mais efetiva atualmente.

 

A vacinação contra a dengue tem potencial para reduzir de maneira significativa não apenas o número total de casos, mas também a incidência de complicações graves, como a Síndrome de Guillain-Barré.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Dengue, epidemias recorrentes e o impacto da SGB

 

A instituição afirma que o Brasil enfrenta episódios frequentes de epidemias de dengue. Apenas em 2024, foram registrados mais de 6 milhões de casos prováveis. Apesar de a SGB ser considerada uma complicação rara, o número absoluto de pessoas afetadas após a infecção por dengue é significativo, exigindo preparação adequada dos serviços de saúde.

 

Outro ponto observado no estudo é que a associação entre arboviroses, doenças transmitidas por mosquitos, e complicações neurológicas já havia sido identificada durante a epidemia de Zika, ocorrida em 2015 e 2016. Nessa ocasião, o vírus foi relacionado tanto à microcefalia em recém-nascidos quanto ao incremento de registros de SGB em adultos. O vírus da dengue pertence ao mesmo grupo do Zika.

 

Características e evolução clínica da Síndrome de Guillain-Barré

 

Classificada como uma condição neurológica incomum, a SGB caracteriza-se pelo ataque do próprio sistema imunológico aos nervos periféricos, que são responsáveis por conectar o cérebro e a medula espinhal a outras regiões do organismo.

 

O quadro clínico mais comum envolve início de fraqueza muscular nas pernas, podendo evoluir para os braços, face e, em situações graves, comprometer a respiração do paciente. Em certos casos, pode ocorrer paralisia total, demandando suporte ventilatório por aparelhos.

 

Apesar de a maior parte dos afetados se recuperar, o processo pode durar meses ou até anos. Alguns pacientes podem apresentar sequelas permanentes após o episódio.

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