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Projeto investiga origem das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo

Projeto Costão Rochoso realiza monitoramento para identificar procedência das tartarugas na RESEX Marinha de Arraial do Cabo

21/04/2026 às 16:17
Por: Redação

Em um cenário de mar tranquilo e céu claro, mergulhadores a bordo de um caiaque adentram as águas da Praia do Pontal, localizada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. A cerca de 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores desce e retorna rapidamente ao barco trazendo uma tartaruga marinha. Logo depois, outra tartaruga é capturada da mesma maneira.

 

A ação, observada por pescadores e banhistas atentos, não possui caráter predatório. Trata-se de um monitoramento destinado a avaliar a saúde desses animais, realizado dentro do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental. A iniciativa busca reunir dados científicos que possam subsidiar práticas de preservação e recuperação dos costões rochosos, áreas que fazem a transição entre o oceano e o continente.

 

Dentre os parceiros da iniciativa está a Petrobras. O projeto assumiu o desafio de determinar a origem das tartarugas que frequentam a região de Arraial do Cabo, localidade que concentra o maior número de tartarugas-verdes do país em áreas de alimentação. Juliana Fonseca, bióloga e uma das fundadoras do projeto, observa que todas as cinco espécies de tartarugas marinhas registradas no Brasil podem ser encontradas em Arraial.

 

Procedimentos para avaliação das tartarugas

Após a captura, os animais são transportados até a areia, onde recebem uma série de exames. Juliana detalha que são realizadas pesagens, medições e coleta de tecido, procedimento semelhante a uma biópsia, com o objetivo de rastrear a procedência desses indivíduos.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.


 

Identificar a origem das tartarugas permite compreender de quais estoques populacionais depende essa área de alimentação, estabelecendo a conexão entre locais de desova e de alimentação dos animais. Segundo Juliana, as tartarugas que frequentam Arraial do Cabo possuem expectativa de vida aproximada de 75 anos, passam cerca de dez anos na região e algumas permanecem até 25 anos antes de retornarem ao local de nascimento para reprodução.

 

Esses animais chegam ao litoral fluminense ainda jovens e pequenas, com desenvolvimento acentuado devido à oferta alimentar da região.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.


 

Monitoramento, identificação e análise genética

O acompanhamento da saúde das tartarugas-verdes e tartarugas-pente ocorre em três praias de Arraial do Cabo — Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal — além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas dentro da reserva marinha. São avaliados casco, nadadeiras, cauda e até mesmo as unhas dos animais para garantir a precisão do monitoramento.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.


 

A identificação dos indivíduos é feita por meio de fotografias e softwares, utilizando-se principalmente das placas que recobrem a cabeça das tartarugas, cujo formato e tamanho variam de animal para animal, funcionando como uma impressão digital única.

 

Desde o início do monitoramento, em 2018, foram catalogados cerca de 500 exemplares. Destes, 80 indivíduos tiveram amostras de DNA coletadas, procedimento que auxiliará na determinação da origem dessas tartarugas. As análises genéticas, feitas em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), possuem previsão de conclusão em até seis meses.

 

Interação com humanos e cuidados na observação

O Projeto Costão Rochoso também realiza pesquisa para estabelecer qual é a distância de aproximação tolerada pelas tartarugas em relação à presença humana.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.


 

Os pesquisadores empregam uma metodologia baseada em aproximação simulada, observando em que momento o animal altera seu comportamento. A partir dos dados coletados, será possível estabelecer uma média da distância mínima suportada pelas tartarugas em situações de observação turística. O objetivo é desenvolver uma cartilha de boas práticas para observação de tartarugas marinhas, com aplicação prevista não apenas em Arraial do Cabo, mas também em outros destinos brasileiros e internacionais.

 

Durante a realização das atividades de pesagem, medição e coleta de tecido, é comum a aproximação de banhistas, incluindo crianças, que questionam se os animais estão doentes. Os integrantes do projeto têm por prática esclarecer o caráter preservacionista do trabalho que realizam. No calçadão da Praia do Pontal, próximo à área cercada onde ocorrem os procedimentos, há placas informando de maneira explícita que é proibido tocar nos animais marinhos.

 

Exigências técnicas e autorizações para pesquisa

Isabella Ferreira, bióloga e pesquisadora, destaca que para executar a captura das tartarugas é indispensável formação acadêmica em áreas como biologia, veterinária ou oceanografia.

 

Além da formação, é obrigatória a obtenção de autorizações junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e ao Projeto Tamar, criado em 1980 e reconhecido internacionalmente como uma das experiências de maior êxito em conservação de espécies marinhas.

 

Os pesquisadores solicitam autorização para todas as etapas do trabalho, incluindo captura, marcação e fotografia das tartarugas. Sempre que atuam na região, notificam os guardas ambientais e apresentam a documentação necessária que comprova a permissão para a realização das atividades.

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