O estado de São Paulo contabilizou 2.942 ocorrências de estupro de vulnerável, especialmente envolvendo crianças e adolescentes, entre janeiro e março de 2026. Esse dado, divulgado pela Secretaria Estadual de Segurança Pública, representa um acréscimo de dez registros em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao analisar mês a mês, foi observado crescimento: foram 892 notificações em janeiro, 915 em fevereiro e, em março, o número saltou para 1.135.
A escalada desses crimes preocupa especialistas. Segundo Ariel de Castro Alves, advogado integrante da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB, há um aumento consistente da violência sexual cometida contra mulheres e meninas, fenômeno que não se restringe ao estado, mas se estende ao país inteiro.
“O aumento da violência sexual em São Paulo e no Brasil tem ligação com a incitação e apologia às violências sexuais por meio da internet, como fazem os chamados grupos red pills”, avalia o especialista.
Ele aponta como um fator relevante para o agravamento do cenário os fóruns misóginos disseminados na internet, que defendem a submissão de meninas e mulheres. Apesar desse contexto, Alves observa que há maior mobilização e conscientização da sociedade, resultando em mais denúncias desses crimes.
O advogado também associa o avanço desse tipo de violência à sensação de impunidade. A maioria dos casos não é denunciada e, quando são, nem sempre há investigação adequada. Ele chama a atenção para o fato de que São Paulo, mesmo enfrentando altos índices desse tipo de crime, continua sendo o único estado brasileiro sem Delegacias Especializadas de Proteção de Crianças e Adolescentes (DPCA).
Essas delegacias estão previstas na legislação desde 2017. Em estados como Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, já existem DPCAs reconhecidas, mas São Paulo não dispõe dessas unidades. Alves exemplifica que casos graves, como o estupro coletivo de duas crianças ocorrido na Zona Leste da capital, têm sido investigados em delegacias distritais, como o 63º Distrito Policial. Por outro lado, situações semelhantes em outros estados, como o caso em Copacabana, são tratados pelas DPCAs locais.
A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Segurança Pública para comentar sobre a ausência dessas delegacias especializadas, mas não obteve resposta até o término da apuração.
No dia 21 de abril, um episódio de estupro coletivo ocorreu no bairro Vila Jacuí, Zona Leste da cidade de São Paulo. Dois meninos, de 7 e 10 anos, foram atraídos por cinco homens — sendo um adulto e quatro adolescentes — sob o pretexto de empinar pipa. O grupo os levou até um imóvel da comunidade com a justificativa de buscar linha de pipa e tomar banho, onde, então, praticaram os crimes.
Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos, foi indiciado pela Polícia Civil na terça-feira (5), após ser transferido de Brejões, na Bahia, para São Paulo. Ele admitiu à Polícia Civil o envolvimento no crime e demonstrou preocupação apenas com as consequências legais, sem manifestar arrependimento. O indiciado responderá pelo crime de estupro de vulnerável. Os demais envolvidos, quatro adolescentes de 14 a 16 anos, foram apreendidos. Todos confessaram participação e serão encaminhados à Fundação Casa.
O crime só chegou ao conhecimento das autoridades três dias após o ocorrido, quando a irmã de uma das vítimas reconheceu o irmão em vídeos compartilhados nas redes sociais e formalizou a denúncia. A família de uma das crianças teria sido pressionada a não procurar a polícia. As vítimas permanecem sob acompanhamento médico e psicológico e ficarão sob proteção do Conselho Tutelar, com sigilo da localização familiar mantido.
Outro caso citado por Alves ocorreu no bairro de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, em janeiro deste ano. Uma adolescente foi estuprada por cinco homens, sendo um deles menor de idade. O mais jovem foi apreendido e os outros quatro permanecem presos pelo crime.
A atuação das DPCAs, segundo o ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), se destaca pelo quadro multidisciplinar, que inclui psicólogos, assistentes sociais e policiais treinados conforme a legislação de proteção à infância e juventude, o que proporciona atendimento humanizado, qualificado e com integração das redes de proteção.
Desde 2022, o mês de maio passou a ser dedicado nacionalmente à conscientização e enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. A legislação que instituiu o chamado Maio Laranja prevê iluminações de prédios públicos, palestras, eventos e atividades educativas, além da divulgação de campanhas midiáticas e de informações sobre prevenção e combate a esse tipo de crime, com ampla promoção dos canais de denúncia, como o Disque 100.
O Maio Laranja é organizado nacionalmente pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e pela Rede ECPAT Brasil, em conjunto com as Redes Nacionais de Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes. Nos estados e municípios, as ações são descentralizadas e ficam sob responsabilidade dos comitês e representantes do Comitê, ECPAT e Redes Nacionais, que articulam as iniciativas locais.
Informações detalhadas sobre as ações regionais e formas de participação podem ser acessadas no site específico da campanha.