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Crise econômica e denúncias de corrupção pressionam governo Milei

Inflação volta a subir, indústria sofre queda e denúncias fragilizam popularidade do presidente argentino

07/05/2026 às 02:22
Por: Redação

O governo liderado por Javier Milei na Argentina atravessa o período mais crítico desde o início de sua gestão, marcado por denúncias de corrupção, queda acentuada nos índices de aprovação popular e desempenho negativo nos setores econômico e industrial.

 

O contexto nacional, que chegou a apresentar redução da inflação para cerca de 2% ao mês ao longo de 2025 após um ciclo de taxas mensais de dois dígitos registrados no final de 2023, voltou a preocupar. Entre o final do ano passado e o início de 2026, os preços voltaram a subir, atingindo 3,4% em março deste ano.

 

O próprio Milei reconheceu publicamente as dificuldades enfrentadas.

“O dado é ruim”
declarou ele por meio de uma rede social, ao comentar a aceleração da inflação.

 

Além do cenário inflacionário, o país registrou retração de 2,6% na atividade econômica durante o mês de fevereiro em relação a janeiro. No acumulado dos 12 meses anteriores, a diminuição chegou a 2,1%.

 

No setor industrial, as dificuldades são ainda mais expressivas. Em fevereiro, a produção recuou 4%, acumulando queda de 8,7% no período de um ano.

 

Estratégias econômicas e efeito no setor produtivo

 

O economista Paulo Gala, da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, analisou o quadro econômico e as propostas do governo Milei, classificando o plano apresentado como simplista e insuficiente para reverter os problemas herdados.

 

Segundo Gala, a desconfiança da população em relação ao peso argentino levou à dolarização dos contratos, o que contribui para a persistência inflacionária. Ele afirmou ainda que a redução do tamanho do Estado, defendida pelo governo, não é suficiente para solucionar o problema:

 

“As pessoas não confiam mais no peso [moeda argentina]. Elas dolarizam [cotam em dólar] os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada.”

 

A equipe econômica de Milei tem adotado corte de gastos públicos e medidas de austeridade como estratégias para controlar a inflação e buscar a recuperação econômica. No entanto, para Gala, seria necessário implementar outras ações, como a criação de uma nova moeda.

 

Gala ressalta também a sobrevalorização do peso argentino e seu impacto na indústria local, indicando que esse fator tem comprometido a competitividade do setor manufatureiro.

 

“Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina.”

 

O economista avalia que o país caminha para ampliar o processo de desindustrialização, tornando-se dependente do segmento de exportação de produtos agropecuários e matérias-primas. Ele alerta para a possibilidade de aprofundamento da recessão e surgimento de uma nova crise cambial, agravada pelo aumento do endividamento público em dólares.

 

“Não está descartado um cenário de recessão e, possivelmente, nova crise cambial com enorme dívida em dólares.”

 

Para buscar estabilidade ao peso, o governo argentino tem recorrido a novos empréstimos junto a bancos internacionais.

 

Desgaste político e queda na popularidade

 

O agravamento da crise econômica se soma à repercussão de denúncias de corrupção, contribuindo diretamente para a redução da aprovação do governo Milei.

 

Um dos casos mais comentados é a investigação acerca de suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete, Manuel Adorni, que tem sido questionado sobre viagens de luxo e aquisição e reforma de imóveis incompatíveis com sua renda declarada.

 

Levantamentos recentes de opinião pública apontam desaprovação superior a 60%. Segundo a pesquisa Atlas Intel, divulgada no final de abril, 63% dos entrevistados reprovam a atuação de Milei; a taxa de aprovação é de 35%.

 

Estudos da consultoria Zentrix indicam que 66,6% da população consideram rompida a promessa eleitoral de combate à corrupção, conhecida como "anti-casta", feita por Milei. Para a empresa, a corrupção já aparece como principal preocupação dos argentinos, superando temas como desemprego, inflação e salários, inclusive entre eleitores do partido governista em 2025.

 

O cientista político argentino Leandro Gabiati explicou que Milei foi eleito com discurso fortemente centrado no enfrentamento à corrupção, mas que esse capital político tem se deteriorado diante dos casos envolvendo integrantes do governo.

 

“Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas.”

 

Gabiati ponderou que, apesar do reconhecimento por parte da população de que houve redução da inflação, ainda há preocupação com a continuidade do aumento dos preços. O cientista político avaliou que a inflação anual, que gira em torno de 30% a 40%, ainda exige esforços tanto da sociedade quanto do governo para ser contida.

 

Por outro lado, ele destacou que a desorganização da oposição, aliada à insatisfação popular com alternativas políticas ao atual governo, tem sido um fator que mantém Milei no poder.

 

“Isso aí quer dizer que o governo terá problemas na eleição presidencial de 2027? Isso é algo que ainda está muito longe no radar. O governo tem alguns problemas que terá que resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino.”

 

Na esfera internacional, houve uma nota positiva para o governo argentino: a agência Fitch Rating elevou o grau de crédito do país de CCC+ para B-, com perspectiva de estabilidade, em razão das melhorias na situação fiscal e no balanço externo. O anúncio impulsionou o mercado financeiro e, na quarta-feira (6), a bolsa de valores de Buenos Aires registrou alta. No entanto, para Paulo Gala, essa melhora ainda não é suficiente para alterar o quadro econômico do país.

 

Relação com a imprensa e restrições no governo

 

O governo Milei tem adotado medidas restritivas em relação à cobertura jornalística. No final de abril, foi proibida a entrada de jornalistas na Casa Rosada, sede do Poder Executivo em Buenos Aires, o que afetou cerca de 60 profissionais da mídia.

 

De acordo com o governo, algumas emissoras teriam gravado imagens em áreas não autorizadas do edifício, alegação negada pelas empresas de comunicação. Após críticas públicas e acusações de violação à liberdade de imprensa, a Casa Rosada voltou a permitir o acesso dos jornalistas em 3 de maio, mas manteve limitações quanto à circulação interna dos profissionais.

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