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Fim da escala 6x1 amplia oportunidades para mulheres no trabalho, afirma ministra

Ministra das Mulheres argumenta que fim da jornada 6x1 pode reduzir desigualdades de gênero e beneficiar empresas

01/05/2026 às 21:45
Por: Redação

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, defendeu que a extinção da escala de trabalho com apenas um dia de folga por semana, conhecida como 6x1, representa uma resposta necessária às demandas contemporâneas e ampliará o acesso das mulheres ao mercado profissional.

 

Durante participação em um evento na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, Márcia Lopes destacou que a mudança na jornada de trabalho permitirá que as mulheres administrem melhor sua saúde, relações familiares e comunitárias.

 

“Elas vão cuidar melhor da saúde, das relações familiares, territoriais. Eu não tenho dúvida que é uma exigência do nosso tempo o fim da escala 6x1”, disse.


 

A discussão sobre a alteração do regime de trabalho ocorre simultaneamente à análise, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei (PL) 1838/2026, proposto pelo governo federal. Esta proposta prevê a redução do limite máximo da jornada semanal de 44 para 40 horas, assegurando dois dias de descanso remunerado sem redução dos salários.

 

O governo federal solicitou urgência na tramitação do PL, que, até a tarde da última quinta-feira (30), ainda aguardava despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para apreciação pela Casa. Na Câmara, também estão em curso duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs), de números 221/19 e 8/25, tratando do término da escala 6x1. Uma comissão especial foi instaurada na quarta-feira (29) para analisar essas matérias.

 

Mulheres são as mais impactadas

 

De acordo com Márcia Lopes, o modelo atual de escala impacta de forma mais intensa as mulheres, que historicamente acumulam múltiplas jornadas devido a fatores ligados à estrutura social e cultural.

 

“Não há dúvida disso”, afirma.


 

A ministra argumenta que a sociedade brasileira, de caráter machista, contribui para essa sobrecarga, uma vez que, além do emprego remunerado, as mulheres dedicam grande parte de seu tempo a atividades não remuneradas, como o cuidado do lar e dos filhos.

 

“Às mulheres, historicamente, foi imputado a elas, dupla, tripla jornadas de trabalho. A elas sempre coube, além do trabalho remunerado, uma grande parte do seu tempo com trabalho não remunerado”, explica.


 

Ela acrescenta que, ao finalizar a jornada formal, muitas seguem desempenhando outras tarefas, como estudar, cuidar da casa e dos filhos e realizar afazeres domésticos.

 

Para a ministra, além de combater a sobrecarga, a mudança pode facilitar a empregabilidade feminina e reduzir a desigualdade de gênero no ambiente de trabalho.

 

“Ao alcançar o fim da escala 6x1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores”, diz ela, enfatizando entre as beneficiadas as mulheres periféricas e negras.


 

Questão salarial e legislação

 

O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, apontou que mulheres brasileiras ganham, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado com cem ou mais funcionários. Isso significa que, para cada mil reais recebidos por um homem, uma mulher recebe 787 reais.

 

Desde julho de 2023, a Lei nº 14.611 reforça a obrigatoriedade de igualdade salarial para homens e mulheres na mesma função. Empresas com cem ou mais colaboradores devem adotar medidas para assegurar essa igualdade, incluindo a publicação dos salários pagos.

 

Consequências para empresas e economia

 

Márcia Lopes avalia que o término da escala de um único dia de descanso semanal pode trazer benefícios também para as empresas, como redução do absenteísmo, que inclui faltas, atrasos e saídas antecipadas, e reflexos positivos para a atividade econômica do país.

 

“Traz muito mais dignidade, traz tempo livre que será utilizado para, inclusive, ir ao cinema, visitar museu, poder se alimentar melhor, organizar a sua comunidade, o seu território, de poder empreender”, lista.


 

Análises sobre impactos econômicos

 

Diversas pesquisas buscam estimar as possíveis consequências da redução da jornada de trabalho no país. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a medida pode prejudicar a competitividade do setor industrial, estimando uma diminuição de 76 bilhões de reais no Produto Interno Bruto (PIB), que representa o total de bens e serviços produzidos no Brasil, além de aumento médio de 6,2% nos preços.

 

Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que a redução da carga horária elevaria os custos da folha salarial em 21% e provocaria pressão inflacionária, com repasse de preços ao consumidor chegando a 13%.

 

Por outro lado, levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, defende que o mercado de trabalho brasileiro teria condições de absorver a redução para 40 horas semanais, com impactos semelhantes aos verificados em reajustes históricos do salário mínimo.

 

Mobilização de mulheres e ações do BNDES

 

Márcia Lopes, que também preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher, relatou que grupos de mulheres têm buscado articulação junto aos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para pressionar pela aprovação do fim da escala 6x1.

 

“As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”, disse.


 

Ela ressaltou que, apesar de haver opiniões contrárias, a democracia prevê o debate e demonstrou expectativa de que esse direito seja conquistado em breve no Brasil.

 

As declarações ocorreram após o anúncio, durante o evento, de que o BNDES destinará 80 milhões de reais para projetos que apoiam mulheres empreendedoras e iniciativas de cuidado nas periferias urbanas. Entre essas ações, estão cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas.

 

Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, também presente na ocasião, mencionou que a luta pelo fim da escala 6x1 está diretamente relacionada à melhoria das condições de vida das mulheres.

 

“A luta para que a gente mude essa situação da escala 6x1 é exatamente ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”, disse.


 

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