Diversas iniciativas, incluindo grupos, cursos e campanhas, estão mobilizando homens para a desconstrução do machismo e o combate à violência contra a mulher, visando promover uma sociedade mais igualitária.
O psicólogo Flávio Urra, integrante do programa “E Agora, José?”, ressalta a urgência de aumentar o engajamento masculino nessa discussão, visto que o número de homens atualmente envolvidos no fim da violência contra a mulher ainda é considerado muito pequeno. Para Urra, uma participação mais ampla dos homens é crucial para enfrentar a violência de forma eficaz.
A Lei Maria da Penha estabelece a obrigatoriedade de agressores frequentarem programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. Nesse contexto, o programa “E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher” atua como um grupo socioeducativo focado na responsabilização masculina.
Flávio Urra observa que, em geral, homens tendem a não se reconhecer como responsáveis pelo machismo, o que gera uma considerável resistência em debater o tema. Essa resistência é ainda mais acentuada entre aqueles que cometeram atos de violência. “Nós fazemos grupos com esses homens, autores de violência contra a mulher, [e no caso] deles a resistência é maior ainda, porque eles se sentem injustiçados por estarem ali obrigados a participar do grupo por uma juíza, um juiz”, explica o psicólogo.
Os participantes do curso, parte do programa, cumprem um total de 20 encontros, cada um com duração de duas horas. Ao término do projeto, conforme relato de Flávio Urra, a percepção unânime entre eles é a de que se tornaram indivíduos melhores.
“Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram para nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir, de alguma forma, afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.”
O consultor de empresas Felipe Requião, que atua há sete anos como facilitador de grupos de homens, identificou padrões de comportamento recorrentes. Entre eles, destacam-se a desresponsabilização individual, manifestada por frases como “eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu” e “tem coisa muito pior que acontece”.
Requião também aponta a invisibilização do impacto e, em alguns casos, a vitimização, que desvia o foco da questão. Ele explica que esses comportamentos são resultado de um aprendizado cultural, enfatizando a importância das rodas de conversa no processo de mudança.
A resistência masculina em participar de diálogos sobre o tema também se manifesta no ambiente corporativo, conforme a observação de Requião. “Tem uma [resistência] que é muito recorrente que é a sensação de perda de espaço. 'Poxa, agora vão tirar espaço dos homens'. Ou 'agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções', etc.”, relata o consultor.
Felipe Requião enfatiza a relevância do envolvimento das lideranças na promoção das pautas de diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Ele defende que se trate de uma jornada contínua, e não de ações isoladas como palestras ou rodas de conversa. Segundo ele, os homens começam a se engajar verdadeiramente após três ou quatro encontros reflexivos.
Estudos citados pelo consultor indicam que ambientes de trabalho que promovem maior igualdade entre homens e mulheres resultam em melhoria do clima organizacional.
“Uma mudança real acontece quando a gente, homem, percebe que não está perdendo. Está se libertando de um modelo que nos restringe, que nos limita, que nos cerceia e que a gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de um outro lugar.“
O engenheiro Carlos Augusto Souza Carvalho, de 55 anos, exemplifica o compromisso de liderança. Ele levou para os funcionários de sua empresa de engenharia a experiência adquirida em um grupo de homens. “Ponho palestra para eles sobre masculinidade, e o que sai dessas reuniões é impressionante, é realmente enriquecedor, a gente vê o quanto todos os homens, independentemente de classe social, condição financeira, posição no mundo, de opção sexual, têm para falar.”
No ambiente digital, o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral mantém, desde 2017, um espaço terapêutico online e gratuito. Segundo ele, a melhoria para os homens começa quando eles percebem que podem expor suas dores ou simplesmente acompanhar conversas sobre machismo e masculinidades.
Como terapeuta familiar, Amaral defende que pais conversem sobre o tema com outros pais, especialmente em grupos de mensagens escolares, para compartilhar experiências sobre como abordar a questão quando os filhos estão envolvidos.
“Construir parâmetros comuns que vão para além da família, escutar a escola, perceber na escola um lugar possível para construir também essas pontes. Então acho que a formação de comunidade, que é uma coisa em baixa no nosso século, é fundamental para a gente produzir discursos que vão além da família. A comunidade é esse meio do caminho entre a família e as políticas públicas e a lei.”
O movimento global **Laço Branco** instituiu no Brasil o dia 6 de dezembro como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.
A campanha desenvolve ações ao longo de todo o ano, como o projeto “Homens de Honra”, que visa formar multiplicadores. Patricia Zapponi, fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, destaca a diferença que faz quando são os próprios homens que abordam o enfrentamento ao machismo em diversos espaços, como clubes, escolas e templos.
“Quando você leva o homem, seja para um canteiro de obra, seja para uma escola, você muda o olhar. Então é um desafio, porque o homem, na grande maioria [dos casos], ele é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então ele tem mais voz para falar com o próprio ofensor.”
Patricia Zapponi também ressalta o alto nível de engajamento masculino nos projetos. “O nosso número de voluntários homens é quase o dobro do número de voluntárias mulheres. E olha que todos eles passam por uma severa inspeção no CPF deles, para a gente saber se não é nenhum ofensor querendo chegar perto da questão.”
Além disso, a campanha **Laço Branco** mantém ações permanentes que envolvem homens, como o “Orange Day”. Outra iniciativa são os núcleos integrados de Acolhimento à Mulher, onde advogados oferecem serviços jurídicos a mulheres vítimas de violência.
Com foco na educação de crianças e jovens, o programa “Maria da Penha Vai à Escola” é implementado há dez anos pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) para prevenir e coibir a violência contra a mulher.
Atualmente, a iniciativa conta com a parceria de diversas instituições, incluindo o TJDFT, o Ministério Público do Distrito Federal e a Secretaria de Estado de Educação do DF. Recentemente, o “Maria da Penha Vai à Escola” foi incorporado como uma das ações do Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, que envolve os Três Poderes.
A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello afirma que existem práticas construtivas em todo o país que promovem a reflexão sobre o tema.
“É importante pensar que já existem boas práticas com uma certa história, com uma boa avaliação em vários estados brasileiros. A gente não precisa inventar a roda, a gente precisa trocar esse conhecimento e afinar cada vez mais essas práticas.”
Valeska Zanello salienta o papel transformador da escola na comunidade e sugere outras iniciativas para envolver os pais. “É possível também abarcar os pais nesse letramento de gênero, promovendo, por exemplo, nas reuniões, palestras que sejam não apenas informativas, mas que também afetem esses pais sobre esse letramento. Convidando, por exemplo, profissionais de áreas diferentes, para falar sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, sobre violência doméstica.”
O orientador familiar Peu Fonseca defende que, para uma reavaliação do machismo, é essencial envolver homens e mulheres em rodas de conversa plurais. Ele nota que, em comunidades escolares, os homens frequentemente formam seus próprios grupos de diálogo.
“Falam sobre o seu parentar, sobre o seu papel no cuidar, tudo isso. Só que eles não falam, talvez, como a gente tem a expectativa do que seja esse papel do homem a ser desempenhado. O que eu acho, na verdade, é que a gente precisa convidar os homens e os pais para ambientes integrados, inclusive não apenas entre homens, mas também com mulheres.”