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Encontro internacional destaca união africana contra terrorismo

Presença de chefes de Estado e especialistas marcou fórum em Dacar sobre desafios e estratégias para a estabilidade africana

21/04/2026 às 12:57
Por: Redação

Líderes africanos defenderam a necessidade de fortalecer a soberania e promover maior integração entre as nações do continente como medidas essenciais para alcançar estabilidade, paz e segurança. Durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, que teve início na capital senegalesa nesta segunda-feira, essas propostas foram apresentadas como resposta aos desafios enfrentados pela região, especialmente diante do avanço de grupos terroristas e da instabilidade causada por questões políticas, econômicas e ambientais.

 

O evento, promovido pelo governo do Senegal desde 2014, reúne autoridades de alto escalão, incluindo chefes de Estado, representantes de organismos internacionais e especialistas de 38 países. Desses, 18 pertencem ao continente africano e os demais são de fora da região, como o Brasil, que está representado pela sua embaixadora em Dacar.

 

Na sessão inaugural, o presidente senegalês Bassirou Diomaye Faye destacou que nos últimos anos o mundo tem enfrentado desafios como rupturas comerciais entre grandes potências, protecionismo e problemas ambientais, afetando diretamente a África.

 

“O nosso continente, longe de estar protegido, sofre os efeitos de todas essas crises e ainda precisa enfrentar múltiplas ameaças, como conflitos armados e o terrorismo”, afirmou.


 

A edição atual do fórum aborda o tema "África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?". O presidente Faye ressaltou que esse debate exige reflexão conjunta e solidária para tirar o continente do ciclo de instabilidade, tornando-o um espaço integrado, próspero e soberano.

 

“Esse tema nos convida a uma reflexão profunda sobre o que devemos fazer juntos, com solidariedade, para tirar o continente do ciclo de instabilidade e transformá-lo em um espaço pacífico, integrado, soberano e próspero”, declarou o presidente do Senegal.


 

Com a presença de representantes de países europeus com histórico colonial na África, como Alemanha, Espanha, Portugal e França – esta última colonizadora do Senegal até 1960 –, Faye enfatizou a importância de a África definir sua própria agenda de segurança e não permitir que interesses externos determinem o rumo do continente.

 

“Não podemos mais aceitar que nossa agenda de segurança seja definida fora da África, nem que nosso espaço estratégico seja ocupado sem nosso consentimento”, argumentou.


 

O presidente destacou ainda a relevância da soberania na gestão de recursos naturais, como petróleo, gás e urânio, encontrados recentemente no Senegal, defendendo a extração, transformação e comercialização desses recursos dentro do próprio território africano como estratégia de transformação estrutural.

 

“Esses recursos não devem mais alimentar apenas indústrias estrangeiras. Extrair em nosso território, transformar em nosso território e vender a preços justos. Esse é o motor da nossa transformação estrutural”, completou.


 

Desafios do terrorismo no continente

 

O terrorismo foi apontado como uma das maiores ameaças, sobretudo na região do Sahel, uma faixa continental que se estende entre o deserto do Saara e as savanas ao sul. Faye explicou que, desde meados da década de 2010, organizações ligadas ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda expandiram sua atuação em direção ao Golfo da Guiné, na costa atlântica africana.

 

Segundo o relatório do Índice de Terrorismo Global de 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, o Sahel foi identificado como o epicentro mundial do terrorismo, sendo responsável por mais da metade das mortes causadas por ataques em 2025. Essa região compreende dez países: Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria.

 

Entre esses países, Mali, Burkina Faso e Níger, localizados no centro do Sahel, registraram juntos aproximadamente 4.500 ataques nas duas últimas décadas, resultando em cerca de 17 mil mortes, de acordo com o índice global.

 

Analistas ressaltaram que a instabilidade política é um fator relevante nesses três países, cada um tendo sofrido pelo menos um golpe militar nos últimos dez anos. Além disso, a presença de grupos insurgentes em áreas de fronteira contribui para o agravamento da situação de insegurança.

 

O estudo do Instituto para Economia e Paz aponta que a ausência de coordenação na segurança das fronteiras entre os países do Sahel tem sido uma das estratégias exploradas por extremistas islâmicos. O presidente senegalês defendeu uma abordagem multidimensional para enfrentar o problema, alertando para a necessidade de controle efetivo das fronteiras e operações conjuntas entre as forças de defesa e segurança dos diferentes países.

 

“Embora a soberania seja importante em crises internas, aqui é necessária uma resposta multidimensional. Devemos trabalhar igualmente para ter um controle efetivo sobre as fronteiras”, afirmou Faye.


 

“Não pode haver um perigo de segurança no Mali que não diga respeito ao Senegal, ou vice-versa. É por isso que uma resposta puramente endógena [interna] de um país contra o terrorismo não seria eficaz”, disse, referindo-se à necessidade de colaboração entre nações vizinhas.


 

O líder senegalês também destacou o papel do compartilhamento de informações, ações conjuntas e controle de fronteiras como pilares fundamentais para a resposta ao terrorismo.

 

Participação dos líderes de Serra Leoa e Mauritânia

 

O presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, relacionou os problemas de segurança enfrentados na África à insuficiência da representação estatal, afirmando que muitos jovens acabam sendo recrutados por grupos violentos por não encontrarem alternativas oferecidas pelas instituições oficiais.

 

Bio ressaltou que investir na juventude não é apenas uma política social, mas constitui uma estratégia de segurança nacional. Ele compartilhou sua experiência pessoal ao participar da guerra civil em seu país, ocorrida entre 1991 e 2002, e destacou as consequências dessa trajetória.

 

“Extremismo e crime organizado encontram espaço nas falhas de governança e em um crescente e perigoso distanciamento entre cidadãos e o Estado. Grupos extremistas recrutam onde há desespero”, declarou o presidente de Serra Leoa.


 

Segundo Bio, a paz vai além da ausência de conflitos armados e deve ser percebida como a possibilidade de as pessoas viverem com dignidade e esperança no futuro. Ele reforçou a importância da estabilidade, integração e soberania como elementos inseparáveis para garantir soluções duradouras aos desafios de segurança no continente.

 

“Integração não existe sem soberania. Soberania não se sustenta sem estabilidade. Se puxarmos apenas um desses elementos, todo o sistema se desfaz”, afirmou.


 

De acordo com o presidente de Serra Leoa, soluções para os desafios africanos devem ser construídas a partir das realidades do continente, sem depender exclusivamente de modelos internacionais adaptados.

 

“Devem ser soluções africanas, baseadas na realidade africana, não apenas modelos importados adaptados superficialmente”, concluiu, acrescentando que parcerias internacionais são importantes, mas devem respeitar a autonomia da África.


 

O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, enumerou fatores que desafiam a coesão das sociedades africanas, como tensões identitárias, déficits de governança, crises institucionais, vulnerabilidade econômica, efeitos das mudanças climáticas e o crescimento de grupos armados não estatais.

 

El Ghazouani destacou que independência não significa isolamento e defendeu a integração regional como ferramenta indispensável para que a África enfrente os desafios impostos pela globalização, fragmentação de cadeias produtivas e transformações no cenário geopolítico.

 

Para o líder mauritano, a integração fortalece a capacidade africana de defender seus interesses, reduzindo dependências externas e ampliando a complementaridade entre os países do continente. Ele reforçou ainda a importância da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países, promovendo o comércio, a circulação de bens, serviços e pessoas, e sendo considerada motor da transformação econômica da região.

 

Atualmente sob liderança da Serra Leoa, a Cedeao busca ampliar sua área de atuação, apesar da recente saída de Mali, Níger e Burkina Faso, que alegaram subordinação da comunidade a interesses estrangeiros. Julius Maada Bio ressaltou a necessidade de convencer os mais de 400 milhões de cidadãos dos países-membros sobre a importância de manter a unidade regional diante dos desafios da atualidade.

 

Durante o fórum, os países africanos participantes enviaram delegações ministeriais, e temas como soberania tecnológica, recursos naturais, transições políticas e indústria de defesa também foram contemplados nos debates realizados ao longo dos dois dias de evento.

 

O jornalista viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.

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