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CNC alerta para impacto das apostas online no endividamento familiar

Apostas em plataformas eletrônicas já desviaram 143 bilhões de reais do varejo em três anos, segundo CNC

29/04/2026 às 13:47
Por: Redação

Entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência dos consumidores relacionada às chamadas "bets" provocou a retirada de 143 bilhões de reais do setor de comércio varejista, conforme dados apresentados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esse valor, segundo a entidade, equivale ao total de vendas obtido durante os períodos de Natal nos anos de 2024 e 2025.

 

No intervalo analisado, os gastos mensais dos brasileiros com plataformas eletrônicas de apostas superaram a marca de 30 bilhões de reais. Essa movimentação financeira, considerada como entretenimento pelas plataformas, comprometeu a renda disponível das famílias para manter pagamentos em dia e pode ter levado cerca de 270 mil famílias à chamada "inadimplência severa", quando há incapacidade de quitar dívidas com atraso igual ou superior a 90 dias.

 

De acordo com a CNC, o consumo e as vendas no comércio varejista foram impactados negativamente pela inadimplência decorrente das apostas online. O economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, apresentou em Brasília, no dia 28, uma análise econométrica baseada em dados levantados pela própria CNC e pelo Banco Central. Ele ressalta que, diante do aumento da pressão financeira sobre as famílias, tanto despesas consideradas não essenciais quanto essenciais acabam sendo postergadas ou cortadas.

 

Em sua avaliação, Bentes observa que, diante do agravamento das dívidas, os consumidores podem, por exemplo, deixar de trocar de aparelho celular ou suspender a compra de itens de vestuário. Essa tendência foi identificada através de estudos estatísticos e matemáticos desenvolvidos pela confederação.

 

O levantamento da CNC aponta que o grau de vulnerabilidade ao endividamento causado pelas apostas online varia conforme o perfil demográfico. Homens, famílias com renda de até cinco salários mínimos, pessoas acima de 35 anos e indivíduos com escolaridade de nível médio ou superior apresentam maior propensão a serem afetados pelos efeitos das apostas eletrônicas. A entidade também destaca que, mesmo entre famílias de renda mais alta, ocorre o redirecionamento de recursos para as apostas, resultando em atrasos nos compromissos financeiros e, consequentemente, inadimplência.

 

"As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência", descreve apresentação da entidade.


 

Discussão sobre regulação e limites para apostas eletrônicas

 

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a criação de políticas públicas regulatórias específicas para as plataformas de apostas eletrônicas, além de medidas de proteção para os consumidores. Tadros afirma em nota que as apostas online já comprometeram significativamente a renda das famílias brasileiras e que esse impacto deixou de ser isolado, atingindo escala macroeconômica. Ele defende que o tema seja debatido, sobretudo em relação à publicidade e à salvaguarda das famílias do país.

 

Dados da CNC revelam que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, índice bastante próximo dos 78% registrados no final de 2022. Entre 2019 e o final daquele ano, a parcela de famílias com dívidas cresceu quase vinte pontos percentuais.

 

Debate sobre fontes de dados e metodologia da análise

 

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de apostas eletrônicas que atuam legalmente no Brasil, enviou no dia 27 uma notificação formal à CNC. O IBJR exige total transparência metodológica e acesso integral às bases de dados utilizadas pela confederação para calcular o impacto das apostas no aumento do endividamento das famílias.

 

Segundo o instituto, análises anteriores partiam de premissas que não condiziam com dados oficiais. O IBJR qualificou as conclusões da CNC como alarmistas e incompatíveis com métricas reconhecidas por órgãos públicos.

 

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os números apresentados pela CNC, afirmando que eles não correspondem às informações oficiais do governo e do setor. A entidade considera que a confederação ignora a multiplicidade de fatores que compõem o quadro de endividamento dos brasileiros.

 

O texto da matéria foi ampliado às 21h29 para incluir o posicionamento da ANJL.

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