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Dois terços dos empresários que apoiaram regime militar descendem de famílias escravistas

Levantamento revela laços entre empresariado apoiador do regime militar e famílias escravocratas no Brasil

28/04/2026 às 00:03
Por: Redação

Pelo menos 66% dos empresários identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como colaboradores do regime militar brasileiro têm raízes em famílias que praticavam a escravidão, conforme aponta um levantamento realizado com base no cruzamento de certidões de nascimento, registros de óbito, livros de batismo e outros documentos acessados no site de genealogia Family Search, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

 

O relatório da CNV, no capítulo intitulado Civis que Colaboraram com a Ditadura, apresenta uma lista de empresas que financiaram a ditadura militar de diferentes formas. Entre os 62 empresários citados no documento e que tiveram suas genealogias reconstruídas pela reportagem, ao menos 40 são descendentes diretos de senhores de escravos.

 

Constam na relação nomes de famílias como Guinle de Paula Machado, antigos proprietários do Porto de Santos; Batista Figueiredo, que além de contar com o último presidente militar do Brasil em sua linhagem, também tinha entre seus membros um vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; Beltrão, de Pernambuco, cuja descendência inclui Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ex-ministro do Planejamento do governo Costa e Silva; e Vidigal, controladora do Banco Mercantil e da Cobrasma, Companhia Brasileira de Material Ferroviário.

 

O episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, investigou o elo entre empresas e o regime militar, abordando a influência de heranças familiares escravistas sobre o poder econômico durante a ditadura.

 

Raízes históricas da elite econômica

Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e especialista em genealogia do poder, explica que a estrutura da elite dominante brasileira remonta ao período colonial, estando presente em todas as regiões do país.

 

"Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões".


 

Apenas foram incluídos os empresários cujos antepassados puderam ser confirmados por documentação original. Entre as fontes analisadas estão certidões civis e religiosos, além de arquivos históricos.

 

Modelo econômico baseado em extração

Segundo Edson Teles, professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), o modelo econômico da ditadura é marcado por uma lógica de extração, que se manifesta não apenas na apropriação de recursos naturais, mas também no uso do trabalho, frequentemente em condições análogas à escravidão.

 

"Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva."


 

Edson Teles destaca que a violação de direitos trabalhistas e a precarização das condições de trabalho são elementos centrais desse sistema, que perpetua práticas herdadas do período escravocrata.

 

O pesquisador liderou o mais abrangente estudo nacional sobre a relação entre empresas, nacionais e estrangeiras, e o regime autoritário. Ele aponta que a união entre poder econômico e repressão estatal visava neutralizar a organização de trabalhadores.

 

"A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados".


 

Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, complementa dizendo que, dois anos após o golpe, o salário mínimo perdeu metade de seu poder de compra, resultado da mudança na política de reajuste frente à inflação. Segundo ele, a inflação elevada corroeu rapidamente o valor real dos salários.

 

Dados do IBGE revelam que, em 1960, os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional. Em 1972, esse índice subiu para quase 40%, indicando aumento da desigualdade social no período.

 

Persistência das mesmas famílias no topo do poder

A permanência dos mesmos grupos familiares nas instâncias de poder ao longo de séculos caracteriza o cenário de imobilidade social no Brasil. De acordo com relatório da OCDE, uma pessoa nascida pobre no país precisaria de nove gerações, cerca de 300 anos, para alcançar a classe média. O Brasil, ao lado de Colômbia e África do Sul, figura entre os países com menor mobilidade social do mundo.

 

"Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias".


 

Investigação sobre a família Bueno Vidigal

Para investigar como se mantém a desigualdade social, a reportagem do Perdas e Danos aprofundou-se na história da família Bueno Vidigal. O critério de escolha baseou-se em três pontos: influência expressiva durante a ditadura militar, atuação em múltiplos setores econômicos — indústria, serviços e finanças — e envolvimento em diversas frentes de apoio ao regime, desde o golpe de 1964 até o financiamento da tortura.

 

No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, voltada à fabricação de trilhos e trens, além do Banco Mercantil, que já foi o maior banco privado do país. A Cobrasma foi herdada posteriormente por Luís Eulálio Bueno Vidigal e, depois, por Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil ficou sob administração de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte, em 2001, quando foi vendido ao Bradesco.

 

Movimento grevista em 1968 e repressão

Documentos do Ministério do Trabalho analisados pela historiadora e professora da Unifesp, Cláudia Moraes de Souza, revelam que a Cobrasma mantinha condições laborais próximas ao regime escravocrata, com ausência de sanitários adequados, refeitório inexistente, trabalhadores almoçando nas calçadas, falta de equipamentos de proteção e até de água potável para consumo durante a jornada.

 

"Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador".


 

Nesse contexto de precarização, a Cobrasma tornou-se foco de uma das maiores mobilizações operárias do período, a greve de Osasco, em 1968. Segundo a professora, a atuação dos empresários envolveu convocação do Exército para reprimir trabalhadores dentro da fábrica.

 

"É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica".


 

A greve resultou na prisão de aproximadamente 400 trabalhadores e é considerada um dos desencadeadores do Ato Institucional nº 5 (AI-5), emitido cinco meses após a paralisação. O AI-5 determinou o fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos parlamentares, censura à imprensa e suspensão do direito ao habeas corpus.

 

Mecanismos de repressão foram financiados pela iniciativa privada

A Operação Bandeirantes (OBAN), criada meses depois do AI-5, tornou-se um dos principais instrumentos de tortura e repressão, servindo de embrião para os DOI-CODIs, que foram instalados em dez capitais a partir de 1970. Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs contaram com apoio financeiro de empresas nacionais e multinacionais. O Banco Mercantil, sob comando de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, figura entre os sócios financiadores.

 

Ivan Seixas, que aos 16 anos foi preso e torturado com o pai no DOI-CODI de São Paulo, relata que os repressores também recebiam prêmios em dinheiro pela captura de opositores do regime.

 

"Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia dólares 750 mil. Um ano depois, quando foi assassinado, valia um dólares 1,5 milhão."


 

Segundo Ivan Seixas, ele próprio foi objeto desse sistema de recompensas, e um carcereiro teria recebido dólares 300 por sua prisão. Para o ex-preso político, o sistema fortaleceu o grupo militar mais radical e prolongou a ditadura.

 

O grupo Bueno Vidigal também esteve à frente do Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), responsável por desenvolver estratégias para adequação das indústrias à produção de material militar. A Cobrasma foi acusada de transformar viaturas da Polícia Militar em blindados utilizados em ações de repressão a manifestações.

 

Como contrapartida a esses apoios, os empresários receberam incentivos fiscais, contratos governamentais e empréstimos de grande porte. A Cobrasma, em seu auge, alcançou faturamento anual de cerca de dólares 470 milhões.

 

Segundo Edson Teles, esses benefícios eram concedidos por bancos estatais, como o BNDE (atual BNDES), que transferia recursos para as empresas com condições financeiras diferenciadas e fora das práticas habituais do mercado.

 

Traços escravocratas da linhagem Bueno Vidigal

Gastão Vidigal nasceu em 1889 em São Paulo, herdeiro de uma família do Nordeste brasileiro e casado com Maria Amélia Pontes Bueno, descendente de tradicional linhagem paulista. Jornais do século XIX do estado de Sergipe revelam que Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão, publicou anúncios manifestando interesse na compra de pessoas escravizadas, e há registros de sua atuação em processos judiciais de definição de preços para alforria, inclusive elevando os valores cobrados na venda de uma mulher e seu neto.

 

Pelo lado materno, os Bueno também estão ligados à utilização da mão de obra escrava. Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, ofereceu uma fazenda de café em Campinas como garantia de empréstimo junto ao Banco do Brasil, incluindo na hipoteca os 75 escravizados que viviam na propriedade no século XIX.

 

Atualmente, o nome Gastão Vidigal está presente em logradouros de diversas cidades do país, como avenidas, ruas, travessas, praças, um aeroporto e até mesmo o nome de um município do interior paulista.

 

Para José Marciano Monteiro, professor da Universidade Federal de Campina Grande, essas denominações não são meros nomes de ruas, mas constituem espaços de memória que contribuem para manutenção das desigualdades.

 

"As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências".


 

Monteiro ressalta que, no caso dos descendentes de pessoas escravizadas, o apagamento da memória dos antepassados foi uma estratégia fundamental do sistema escravista para impedir a construção de referências.

 

Posicionamento dos envolvidos e eventos recentes

A Cobrasma encerrou suas atividades no ano de 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, que presidiu o Banco Mercantil, faleceu em 2001 aos 82 anos, figurando entre os brasileiros mais ricos à época. O clã voltou ao noticiário em 2019, quando outro banco fundado por Álvaro Augusto Vidigal, o Banco Paulista, foi alvo de investigação da Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.

 

A reportagem procurou o Banco Paulista para questionar se algum membro da família se manifestaria a respeito da origem escravocrata da fortuna familiar e sobre a possibilidade de revisão do apoio de integrantes do clã ao regime militar, além das acusações envolvendo a Operação Lava Jato. Em resposta, a assessoria informou que Guti Vidigal, presidente do Banco Paulista, não é descendente direto do financiador da OBAN, nem possui ligação com a Cobrasma.

 

Também foi solicitado posicionamento de Luís Eulálio Vidigal, da Cobrasma, sobre a ocupação da fábrica pelo Exército em 1968, o crescimento da empresa durante a ditadura e o fechamento das operações com a redemocratização, mas não houve resposta a nenhuma das questões encaminhadas pela reportagem.

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