A cidade de Santa Marta, na Colômbia, foi palco, nesta sexta-feira (24), do início da 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, evento que reúne representantes de mais de 60 nações com o objetivo de debater estratégias para reduzir a produção, o consumo e a dependência global do petróleo.
Durante o encontro, os participantes pretendem contribuir para a elaboração do Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis, documento que está sendo elaborado sob a coordenação da presidência brasileira da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O propósito desse material é fornecer diretrizes para a transição energética e para a diminuição das emissões de gases do efeito estufa, associados às mudanças climáticas.
A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, concedeu entrevista antes de embarcar para o evento, detalhando o papel do Brasil no processo e enfatizando que a guerra no Irã, assim como a instabilidade do preço do petróleo, tornaram evidente a necessidade urgente de diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Segundo ela, tais eventos ressaltaram que a transição energética não se limita a questões ambientais, mas envolve também aspectos econômicos, energéticos e de segurança global.
"A gente não tinha ideia que isso ia acontecer, mas acho que o nosso Mapa do Caminho se transformou em uma plataforma para discutir e revisar a segurança energética, econômica e essa dependência global que temos de combustível fóssil", declarou Ana Toni.
A presença da presidência da COP30 em Santa Marta tem como foco ouvir as demandas de países, sociedade civil e grupos indígenas. Ana Toni explicou que o Mapa do Caminho que está sendo desenvolvido já é uma resposta direta ao que foi ouvido durante a COP30 e que a conferência na Colômbia representa mais uma etapa importante desse processo de escuta e debate.
Ela destacou a relevância do evento realizado pela Colômbia em conjunto com os Países Baixos e afirmou que a delegação brasileira se compromete em ajustar o Mapa do Caminho conforme as discussões e contribuições colhidas em Santa Marta, a fim de refletir os pontos levantados durante a conferência.
De acordo com Ana Toni, a decisão de buscar alternativas aos combustíveis fósseis foi tomada na COP28, em Dubai. Agora, a prioridade é aprofundar o debate sobre como colocar essa decisão em prática. Ela destacou a importância de definir etapas, sequências de ações e de ouvir diferentes setores da sociedade para determinar os próximos passos.
Segundo Toni, implementar o que foi decidido não exige consenso entre todos os países, pois cada nação terá prioridades distintas. Para alguns, a eletrificação pode ser a melhor via; para outros, investir em combustíveis sustentáveis será mais adequado. O fundamental, segundo ela, é mostrar que existem múltiplos caminhos para avançar na transição energética decidida na COP28.
Toni ressaltou que três a cada quatro pessoas no mundo vivem em países que dependem da importação de combustíveis fósseis. Assim, a presença dos mais de 60 países na conferência é considerada significativa para o processo, envolvendo tanto produtores quanto consumidores. Ela citou o exemplo da Etiópia, que optou por não importar mais carros movidos a combustão, como ilustrativo desse movimento global.
O Mapa do Caminho recebeu mais de 250 contribuições formais de países e entidades, indicando grande interesse internacional em discutir os próximos passos. Para Ana Toni, o fórum em Santa Marta representa uma oportunidade importante para amadurecer estratégias e alternativas concretas, sendo que a decisão sobre a transição já ocorreu em âmbito internacional.
O prazo para envio de contribuições ao Mapa do Caminho foi encerrado em 10 de abril. Ana Toni comentou que um dos principais desafios agora é organizar e priorizar as informações recebidas para que as recomendações sejam adequadas às circunstâncias de cada país. Ela reiterou que a guerra contra o Irã, desencadeada por Estados Unidos e Israel, evidencia que a superação da dependência dos combustíveis fósseis é necessária não apenas por razões ambientais, mas também por fatores econômicos, energéticos e de segurança.
Infelizmente, a guerra contra o Irã, promovida pelos Estados Unidos e Israel, mostra que caminhar para longe dos combustíveis fósseis, dessa dependência que temos, é absolutamente necessário. Não só por questões climáticas, mas por questões econômicas, energéticas e de segurança.
Ela reforçou que, embora não se possa eliminar a dependência global de combustíveis fósseis de modo imediato, é fundamental planejar essa transição para evitar impactos negativos como os que ocorrem atualmente no mundo.
Quanto à estrutura do documento, Toni informou que a ideia é organizar o Mapa do Caminho em capítulos. O primeiro abordará os riscos associados à não transição, incluindo riscos climáticos, naturais, políticos e de segurança. O segundo capítulo trará perspectivas tanto de produtores quanto de consumidores de combustíveis fósseis, analisando setores como energia elétrica, transporte e indústria. O terceiro segmento será dedicado à dependência econômica, destacando as diferentes realidades nacionais e também de governos municipais, que enfrentam desafios econômicos decorrentes dessa dependência. Por fim, o último capítulo apresentará as recomendações elaboradas pelo grupo para orientar não apenas a COP31, mas também iniciativas globais.
A dirigente defendeu que a transição para uma economia de baixo carbono já está em andamento, embora muitos países ainda estejam investindo simultaneamente em fontes renováveis e em combustíveis fósseis. O objetivo do Mapa do Caminho é incentivar a redução do uso de combustíveis fósseis, movimento que, segundo Toni, já tem início.
Ela destacou ser indispensável que essa mudança ocorra de forma justa para se tornar viável. A expectativa é que debates internacionais contínuos, como a COP31, a COP32 e o segundo Balanço Global, permitam o amadurecimento das iniciativas e a identificação das ações que devem ser aceleradas nos próximos ciclos internacionais de negociação climática.
"Eu não tenho nenhuma dúvida que essa mudança tem que ser justa, porque, se não, ela não vai acontecer. Eu acho que a gente tem uma oportunidade única de continuar debatendo esse tema. Vai ter aí COP31, COP32, vai ter o segundo Balanço Global, para que a gente amadureça o que está funcionando. Para a gente chegar nesse novo Balanço Global muito mais capazes de falar o que deve e pode ser acelerado daqui para frente", afirmou Toni.
Ao final, ela se mostrou otimista quanto ao futuro do debate, ressaltando a importância de manter o tema da transição energética em evidência política para a tomada de decisões acertadas a nível global e local.