Em Portugal, 41 empresas de diferentes setores e tamanhos implementaram, de forma voluntária, uma escala de trabalho de quatro dias seguidos por três dias de descanso, totalizando a jornada 4x3. Essa iniciativa foi analisada pelo professor de economia português Pedro Gomes, da Universidade de Londres, em seu livro que examina as consequências dessa redução da carga horária semanal.
Pedro Gomes, especialista da Escola de Negócios da universidade londrina, defende que a diminuição da jornada é plenamente viável e pode trazer benefícios para a economia de um país como um todo, além de promover avanços sociais.
Segundo a pesquisa conduzida por Gomes, entre as 41 companhias que aderiram ao novo modelo, 52% pretendem manter a jornada de quatro dias, 23% optaram por continuar com jornada reduzida, mas em escala menor, e apenas 19% informaram que retornarão ao modelo tradicional de cinco dias de trabalho por dois de descanso (5x2).
Os resultados apontam que, para mais de 90% dessas empresas, não houve impacto financeiro negativo. Dessas, 86% apresentaram aumento de receitas no ano seguinte à mudança, enquanto 14% tiveram receitas inferiores. Além disso, aproximadamente 70% dos negócios relataram melhorias nos processos internos após a implementação da semana reduzida.
O estudo destaca também que a reorganização das rotinas foi crucial para o sucesso da medida, sendo a redução do tempo destinado a reuniões uma das principais alterações promovidas nas organizações portuguesas.
De acordo com o economista Pedro Gomes, o aumento da produtividade por hora trabalhada costuma compensar os custos associados à redução da jornada. Ele ressalta que, historicamente, em todas as experiências de diminuição do tempo de trabalho, as empresas conseguiram produzir mais em menos tempo, graças à adoção de métodos mais eficientes.
“O que, historicamente acontece, em todas as reduções do tempo de trabalho, é que há um aumento da produtividade por hora. Existem melhoras, na forma como estamos a produzir, que compensam em grande medida, do ponto de vista das empresas, essa redução do tempo de trabalho”, explicou.
Gomes observa que há resistência por parte de muitos empresários diante da possibilidade de diminuir a jornada, geralmente motivada por temor de aumento de custos. Porém, o pesquisador argumenta que a reorganização do trabalho pode, inclusive, proporcionar benefícios operacionais, tornando o ambiente corporativo mais atrativo, reduzindo o número de faltas e aumentando a retenção de talentos.
“A semana de trabalho de quatro dias é uma prática de gestão legítima e viável, que proporciona benefícios operacionais às empresas, como melhor ambiente de trabalho, redução do absentismo [faltas] e aumento da atratividade no mercado de trabalho. No entanto, para ser bem-sucedida, a sua implementação requer uma reorganização profunda”, escreveu Gomes.
O tempo livre adicional conquistado pelos trabalhadores também gera efeitos econômicos relevantes. A expansão das atividades de lazer, entretenimento e turismo é um dos impactos observados, ampliando o consumo nesses setores e fortalecendo a economia de modo geral.
“Os trabalhadores também são consumidores. Eles também são inovadores, também são cidadãos, têm estudantes e, portanto, o que eles fazem no tempo livre tem um impacto econômico”, explicou.
O professor relembra que, quando Henry Ford reduziu, em 1926, a jornada semanal para 40 horas em sua montadora nos Estados Unidos, houve uma transformação significativa no padrão de consumo: 70% da população passou a frequentar cinemas, impulsionando a indústria audiovisual norte-americana e beneficiando empresas de esportes, música, literatura, hotelaria e cultura. Gomes cita ainda a experiência da China, que, em 1995, instituiu o fim de semana de dois dias para parte da força de trabalho, gerando crescimento no mercado doméstico de turismo.
No caso específico de Portugal, a transição para 40 horas semanais ocorreu em 1996, reduzindo o tempo de trabalho anterior, que era de 44 horas.
Um dos efeitos imediatos constatados com a adoção da semana de quatro dias foi a diminuição das ausências ao trabalho e da rotatividade de funcionários. Essa mudança facilita o equilíbrio entre o emprego e a vida familiar, sendo especialmente positiva para mulheres.
“A rotatividade de trabalhadores e altos níveis de absentismo (faltas) tem um custo enorme para as empresas. Com menos horas trabalhadas, eles vão faltar menos e vão querer sair menos do trabalho, reduzindo a rotatividade”, disse.
Entre as empresas analisadas, algumas encontraram formas de manter estabelecimentos abertos aos sábados, mesmo com a jornada reduzida. A solução encontrada foi ajustar as escalas, mantendo menos funcionários presentes nos dias de menor movimento, como terças e quartas-feiras, sem necessidade de fechamento do comércio.
“Se vê que tem menos fluxo de clientes nas terças e quartas, então dá mais dias livres aos trabalhadores naqueles dias de menor movimento. Ficam menos trabalhadores na loja, mas a loja fica aberta.”
O pesquisador ressalta que, frequentemente, as empresas só consideram as vantagens desse tipo de mudança após a entrada em vigor de legislações específicas, embora muitas alternativas de adaptação estejam disponíveis internamente.
“Há muitas escolhas do lado das empresas, só que, muitas vezes, elas não querem pensar nisto. Vão pensar depois da legislação. Não conseguem perceber antes os benefícios que vão ter”, ponderou.
Pedro Gomes rejeita previsões negativas em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) que poderiam surgir com a implementação da jornada reduzida e o fim do regime 6x1 no Brasil. Ele analisou 250 casos de mudanças legislativas que diminuíram a jornada de trabalho em diferentes países desde 1910. Antes dessas alterações, a média de crescimento do PIB era de 3,2% nos cinco anos que antecederam a reforma, passando para uma média de 3,9% nos cinco anos seguintes.
O pesquisador atribui esse resultado ao ganho de produtividade por hora e aos efeitos macroeconômicos adicionais relacionados ao bem-estar dos trabalhadores e ao consumo.
“Esses efeitos sobre a produtividade por hora foram muito significativos e compensaram amplamente a redução da jornada de trabalho. Além disso, todos esses outros efeitos macroeconômicos também tiveram impacto [no PIB]”, explicou.
Para o professor, a longa duração do deslocamento diário de trabalhadores brasileiros é mais um argumento em favor da redução do tempo de permanência no trabalho, pois contribui para elevar a qualidade de vida e reduz custos que, normalmente, as empresas tendem a superestimar.
“É uma razão adicional. Os trabalhadores vão melhorar muito a qualidade de vida, vão valorizar muito, e os custos para as empresas são muito mais baixos do que eles costumam argumentar”, finalizou.