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Pesquisa evidencia baixa frequência de leitura para crianças em famílias brasileiras

Mais da metade dos responsáveis por crianças de cinco anos não realiza leituras frequentes, aponta levantamento da OCDE

06/05/2026 às 00:31
Por: Redação

Uma investigação internacional conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que 53% das famílias brasileiras de três estados — Ceará, Pará e São Paulo — quase nunca ou nunca realizam leituras de livros para crianças de cinco anos matriculadas na pré-escola.

 

O levantamento indica ainda que somente 14% dos responsáveis nessas regiões praticam a leitura compartilhada de três a sete vezes por semana. Esse índice brasileiro está muito abaixo da média internacional, que é de 54% para essa atividade.

 

Segundo Tiago Bartholo, coordenador do estudo e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), a situação crítica é observada também entre famílias de maior renda, onde o percentual de leitura frequente não alcança 25%.

 

Bartholo destaca que a população ainda não tem clareza da importância da leitura compartilhada como parte fundamental do processo de alfabetização e desenvolvimento das crianças. A ausência desse vínculo, conforme o pesquisador, traz consequências negativas para o desenvolvimento infantil.

 

Essa informação ainda não está devidamente disseminada. São momentos muito importantes para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças.

 

O resultado do estudo aponta para a necessidade de promover políticas intersetoriais e programas que apoiem a parentalidade, além de fortalecer a cooperação entre família e escolas de educação infantil. De acordo com Bartholo, é fundamental pensar em estratégias conjuntas que potencializem o desenvolvimento e o bem-estar das crianças.

 

Detalhes da metodologia e abrangência

O estudo internacional limitou-se às três unidades federativas citadas, em razão de restrições orçamentárias. A investigação analisou três grandes áreas do desenvolvimento de crianças de cinco anos, contemplando dez domínios: aprendizagens fundamentais (conhecimentos de linguagem e raciocínio matemático), funções executivas (controle de atenção, impulsos, adaptação a regras, memória de trabalho, flexibilidade mental) e habilidades socioemocionais (compreensão de si, dos outros, empatia, confiança, comportamento pró-social).

 

Foram avaliadas 2.598 crianças distribuídas em 210 instituições de ensino, sendo 80% da rede pública e 20% do setor privado nos estados pesquisados. A metodologia empregada no IELS-2025 incluiu atividades lúdicas e interativas, como jogos e histórias apropriadas para a faixa etária, além de questionários específicos para familiares e professores sobre desenvolvimento, aprendizagens e comportamento das crianças.

 

Os dados inéditos, analisados em grande escala, têm potencial para subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas para a primeira infância no Brasil, além de possibilitar ajustes estratégicos nos campos da saúde, educação e proteção social.

 

Desempenho em literacia e numeracia

O conceito de literacia emergente, utilizado no estudo, diz respeito ao desenvolvimento de capacidades iniciais de linguagem oral e vocabulário antes mesmo da alfabetização formal. No Brasil, a pontuação média alcançada em literacia foi de 502 pontos, situando-se ligeiramente acima da média internacional, fixada em 500 pontos. Os resultados nesse domínio apresentaram pouca variação entre diferentes níveis socioeconômicos, permanecendo em torno de um patamar médio elevado.

 

Mariane Koslinski, pesquisadora do mesmo laboratório da UFRJ, sugere que políticas públicas recentes de incentivo à alfabetização e formação de professores podem explicar esse desempenho positivo brasileiro em literacia emergente.

 

A pesquisa também analisou o domínio da numeracia emergente, que envolve as primeiras noções matemáticas assimiladas por crianças, como contar, comparar quantidades, reconhecer relações espaciais e temporais. Nesse aspecto, o desempenho nacional ficou em 456 pontos, 44 abaixo da média internacional de 500 pontos. Além do resultado inferior, observou-se grande variação entre as crianças da amostra, com desigualdades já perceptíveis ao término da pré-escola.

 

O domínio das habilidades matemáticas mostrou que 80% das crianças de nível socioeconômico elevado são capazes de reconhecer numerais, percentual que cai para 68% entre aquelas com menor desenvolvimento socioeconômico.

 

Desigualdades por raça, gênero e renda

O Brasil foi o único país a realizar recorte racial nos resultados do estudo da OCDE, permitindo analisar o impacto dessas variáveis na aprendizagem e no bem-estar das crianças. Os dados apontaram que meninos, crianças negras, pardas, indígenas e de baixa renda enfrentam obstáculos mais significativos para o aprendizado ao final da educação infantil.

 

A análise mostrou ainda que crianças negras, beneficiárias do Bolsa Família e de famílias com menor renda obtiveram as menores pontuações em quase todos os domínios, principalmente em memória de trabalho e conhecimentos matemáticos. A diferença entre crianças brancas e negras foi de 17 pontos em linguagem e atingiu 40 pontos em numeracia.

 

Uso de telas e impacto no desenvolvimento

O estudo evidenciou a ampla presença de tecnologias digitais entre crianças pequenas nos estados avaliados. Segundo as famílias, 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais como computador, notebook, tablet ou celular diariamente, desconsiderando o uso exclusivo de televisão. O percentual brasileiro, divulgado pela primeira vez, supera a média dos países participantes do IELS, que é de 46%.

 

No Brasil, somente 11,4% das crianças quase nunca ou nunca utilizam esses dispositivos. Os dados reforçam a importância de um uso moderado e supervisionado.

 

Bartholo observa que o uso diário dos dispositivos está associado a desempenho inferior em leitura, escrita e matemática.

 

Uma coisa é uma criança fazer um uso diário de 30 minutos, uma coisa muito diferente fazer um uso diário de três a quatro horas. E a gente sabe que esse tipo de comportamento existe.

 

Outro elemento do estudo internacional aponta que a maioria das crianças (62%) raramente ou nunca utiliza computadores, tablets ou celulares para atividades educativas, e apenas 19% têm esse tipo de interação entre três e sete vezes por semana.

 

Atividades ao ar livre e estímulos diversificados

Apenas 37% das famílias brasileiras relatam realizar frequentemente atividades externas, como caminhadas e brincadeiras livres, percentual inferior à média de 46% dos países participantes do estudo. Já 29% afirmaram nunca ou quase nunca adotar esse tipo de prática semanalmente.

 

O levantamento ressalta a importância do acesso das crianças a ambientes externos e atividades como visitas a bibliotecas, cursos, oficinas e aulas de música, dança ou esportes, fundamentais para o desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional, bem como para a criatividade e socialização. Barreiras como custos, falta de tempo, escassez de equipamentos culturais e hábitos familiares podem limitar a participação em tais experiências.

 

Bartholo defende que a escola deve ser o espaço prioritário para a oferta de atividades físicas, considerando sua relevância para o desenvolvimento infantil.

 

A prática regular de atividade física está associada com melhores indicadores de saúde física e mental e está associada com mais cognição e tem impacto brutal na memória de trabalho.

 

Outras atividades estimulantes, como cantar, recitar poesias ou rimas, desenhar, brincar de faz de conta e contar histórias inventadas, também têm baixa frequência nas famílias brasileiras, segundo o estudo.

 

Diálogo sobre emoções e relações sociais

Mais da metade das famílias (56%) conversa com as crianças sobre sentimentos entre três e sete dias por semana, embora esse percentual seja inferior à média internacional, de 76%. O estudo destaca que tais conversas, além de fortalecerem vínculos afetivos, promovem o aprendizado sobre emoções e construção de relações sociais positivas.

 

Em relação à empatia, as crianças brasileiras apresentaram pontuações elevadas: 501 pontos em atribuição de emoções e 491 pontos em identificação de emoções, superando a média internacional nesses aspectos.

 

Desempenho nas funções executivas

O estudo avaliou as funções executivas, que abrangem habilidades cognitivas como planejamento, foco de atenção, memorização de instruções e execução de múltiplas tarefas simultaneamente. A memória de trabalho, que permite armazenar e manipular informações, destacou-se como a dimensão mais impactada pelo nível socioeconômico, registrando uma diferença de 39 pontos entre crianças de renda alta e baixa, considerada elevada.

 

No conjunto dos domínios avaliados — memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental —, as médias brasileiras ficaram abaixo das médias internacionais, com diferenças moderadas a grandes e estatisticamente relevantes.

 

Participação do Brasil no estudo internacional

O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância encontra-se em sua segunda edição e reúne Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Malta e Inglaterra. O Brasil é o único representante da América Latina a integrar a pesquisa da OCDE, que no país contou com o suporte de um consórcio de instituições liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

 

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