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Aquecimento global acelera contaminação dos oceanos por mercúrio, alertam cientistas

Cientistas indicam aumento do metilmercúrio nos oceanos, impulsionado pelo aquecimento global, e discutem desafios para reduzir emissões.

06/05/2026 às 00:30
Por: Redação

O processo de transformação do mercúrio em metilmercúrio, substância ainda mais tóxica e de fácil acúmulo nos organismos, está sendo potencializado pelo aumento das temperaturas globais, segundo especialistas. O metilmercúrio é introduzido na cadeia alimentar e pode atingir os seres humanos principalmente por meio da ingestão de peixes, representando riscos à saúde.

 

Atualmente, a estimativa é que cerca de 230 mil toneladas de mercúrio estejam presentes nos oceanos. Este elemento químico pode permanecer nessas águas por um período aproximado de 300 anos, de acordo com dados recentes.

 

Essas informações foram divulgadas na terça-feira, dia 5, pelo químico Lars-Eric Heimbürger-Boavida, membro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), da França. Ele apresentou os dados durante a abertura das discussões sobre a poluição marinha, primeiro tema debatido na Reunião Magna de 2026 da Academia Brasileira de Ciências (ABC), evento sediado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

 

Nos últimos anos, os números passaram por revisão: anteriormente, falava-se em até 100 milhões de toneladas concentradas nos oceanos e uma permanência superior a 100 mil anos. A maior parte do mercúrio chega aos mares por meio de atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, a mineração, processos industriais e o desmatamento. Fontes naturais, como erupções vulcânicas e erosão de rochas que contêm o metal, também contribuem para o acúmulo, mas em menor escala.

 

Lars-Eric Heimbürger-Boavida destacou que a comunidade científica já dispõe de conhecimento suficiente para orientar decisões políticas voltadas à redução da poluição por mercúrio. Uma das principais iniciativas globais nesse sentido é a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, que visa diminuir a exposição ao metal.

 

“Temos bastante embasamento científico e influência suficiente para tomar uma decisão política sobre este quadro. Temos em vigor a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, cujo objetivo é reduzir nossa exposição ao mercúrio”, diz Lars-Eric.


 

O pesquisador explicou que não é possível eliminar ou evitar a atuação das bactérias responsáveis pela produção de metilmercúrio. A única medida viável, segundo ele, é diminuir as emissões do metal e esperar que, no futuro, a quantidade de mercúrio no ambiente seja menor. Ele ressaltou que as condições de temperatura mais elevadas favorecem a atividade bacteriana. No caso do Ártico, por exemplo, o aumento do calor provoca a liberação de mercúrio depositado nas geleiras e estimula a produção de metilmercúrio pelas bactérias.

 

Circulação do mercúrio entre continentes e oceanos

 

A questão da poluição marinha por mercúrio também foi tratada pelo biólogo Carlos Eduardo de Rezende, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), durante o evento. Ele abordou o papel do metal enquanto poluente global, ressaltando sua interação com a matéria orgânica nos ecossistemas terrestres e costeiros.

 

Rezende explicou que o mercúrio circula livremente pela atmosfera e pode se redistribuir pelo planeta sem depender da localização da fonte emissora. A matéria orgânica desempenha papel determinante no processo, funcionando como um suporte geoquímico capaz de reter o mercúrio e afetar seu deslocamento.

 

Em áreas como a bacia do Rio Paraíba do Sul, que engloba os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, alterações no uso da terra provocam mudanças na dinâmica do mercúrio. O professor afirmou que, mesmo após a implementação da Convenção de Minamata, ainda existe mineração ilegal na região.

 

“Ainda temos muito o que estudar sobre o ciclo global do mercúrio e os fatores relacionados a ele. Principalmente, quando pensamos no Antropoceno, nos impactos dos seres humanos sobre a Terra. Nesse ambiente de transição energética e de mudanças climáticas, é importante que os governos estejam envolvidos na questão também”, analisa o pesquisador.


 

Debate internacional reúne especialistas sobre o oceano

 

A edição de 2026 da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências, cujo tema central é a ciência oceânica, segue até o dia 7 de maio. O evento reúne pesquisadores do Brasil e de outros países, sob coordenação do acadêmico Luiz Drude de Lacerda, doutor em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor titular do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar-UFC).

 

Luiz Drude de Lacerda destacou que o oceano desempenha função essencial no equilíbrio ambiental do planeta, além de ser fonte de sustento e bem-estar para milhões de pessoas. Ele alertou, no entanto, que o sistema marinho sofre crescente pressão devido à poluição, exploração intensiva de recursos e impactos das mudanças climáticas, fatores que ameaçam suas características naturais.

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