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Série documental indígena evidencia identidade Paiter Suruí na TV Brasil

Série 'Gente de Verdade' traz à TV Brasil a luta do povo Paiter Suruí pela preservação cultural.

22/04/2026 às 21:39
Por: Redação

A série documental Gente de Verdade, que aborda a trajetória do povo indígena Paiter Suruí e sua luta pela preservação da memória e identidade cultural, foi contemplada pela chamada pública Seleção TV Brasil. Esta produção é protagonizada por indígenas e acompanha a busca pela valorização das tradições e narrativas do povo Paiter Suruí, localizado na região amazônica, especificamente entre os estados de Rondônia e Mato Grosso, onde está situada a Terra Indígena Sete de Setembro.

 

A obra faz parte do grupo de projetos selecionados pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com recursos provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Em fevereiro, a EBC divulgou os 39 projetos contemplados pela Seleção TV Brasil. No total, o investimento nas produções contratadas alcança o valor de 109.889.224,78 reais, constituindo o maior aporte financeiro já realizado pelo Estado brasileiro para conteúdos audiovisuais destinados à televisão pública.

 

O projeto integra o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), coordenado pelo Ministério da Cultura (MinC) em conjunto com a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

Selecionada na categoria Sociedade e Cultura, a série Gente de Verdade compõe um grupo de oito produções que abordam temas sociais e culturais. A narrativa se passa na Terra Indígena Sete de Setembro, território que se tornou lar do povo Paiter Suruí há mais de 50 anos, desde o primeiro contato desse grupo com o homem branco. Desde então, profundas mudanças vêm ocorrendo na comunidade, como a substituição de práticas tradicionais religiosas por igrejas, o abandono de rituais e o esquecimento da língua originária Tupi Mondé entre os mais jovens.

 

O seriado acompanha quatro personagens centrais, pertencentes a três gerações distintas: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. Eles enfrentam o desafio de preservar a identidade Suruí frente à influência da fé cristã, aos impactos da urbanização e da tecnologia, abordando questões como ancestralidade, pertencimento e os desafios impostos pelo choque entre tradição e modernidade.

 

Composta por oito episódios de 26 minutos cada, a série apresenta uma narrativa conduzida pelos próprios indígenas, oferecendo uma perspectiva interna e autêntica sobre a vida do povo Suruí. O enredo é impulsionado pela redescoberta de um acervo visual produzido por um fotógrafo alemão durante o primeiro contato da comunidade com o homem branco, na década de 1970. Esse material torna-se o centro de debates sobre espiritualidade, memória e identidade, questionando se as imagens podem ser recuperadas sem infringir crenças e tradições, como aquelas que proíbem mencionar pessoas falecidas.

 

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, coordenou a Seleção TV Brasil enquanto diretora de Conteúdo e Programação. Em suas palavras, o projeto tem potencial para ser premiado em qualquer edital, mas os responsáveis pela produção optaram por inscrevê-lo especificamente na seleção da TV Brasil, reforçando a escolha por uma emissora pública para exibição da obra.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.


 

Indígenas lideram produção e narrativa

 

Dirigida por Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao próprio povo Paiter Suruí, e com roteiro de Natália Tupi, cineasta e fotógrafa indígena, a produção valoriza o protagonismo de realizadores indígenas no audiovisual, destacando a importância das narrativas construídas a partir das experiências diretas em seus territórios.

 

Segundo Ubiratan Suruí, um dos principais diferenciais da série está no fato de ser concebida e conduzida pelos próprios indígenas, o que confere autenticidade à narrativa.

 

Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

Ubiratan também enfatiza a importância da exibição de uma obra indígena na TV Brasil, ressaltando que, por ser um canal público de abrangência nacional, a emissora contribui para ampliar o conhecimento sobre a cultura indígena e promover diálogo, respeito e reconhecimento. Ele destaca que ocupar esse espaço contribui para combater a invisibilidade e permitir que as vozes dos povos originários sejam realmente ouvidas em todo o Brasil.

 

Exposição fotográfica complementa série

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou em São Paulo a exposição "Paiter Suruí, Gente de Verdade", exibindo 800 fotografias produzidas desde a década de 1970, quando as câmeras chegaram à Terra Indígena Sete de Setembro. A mostra propiciou um mergulho nas histórias, tradições, cotidiano, afetos e resistência do povo indígena. Todo o conteúdo da exposição está disponível para acesso no site do IMS.

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